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28.8.11

On his blindness


Indigno dos astros e da ave
Que sulca o azul profundo, ora secreto,
Dessas linhas que são o alfabeto
Que outros ordenam e do mármore grave
Cujo lintel meus fatigados olhos
Perdem em sua penumbra, dessas rosas
Invisíveis e das silenciosas
Profusões de ouros e de vermelhos
Sou, mas não das Mil Noites e Uma
Que abrem em minha sombra o mar e o alvor
Nem de Walt Whitman, esse Adão nomeador
Das crianças que existem sob a lua,
Nem desses brancos dons do esquecimento
Nem do amor que espero sem um lamento

Jorge Luis Borges

21.7.11

RELIGIO MEDICI

Defende-me, Senhor. (O vocativo
Não implica Ninguém. É só uma palavra
Deste exercício que o enfado lavra
E que na tarde do temor cultivo.)
Defende-me de mim. Já o disseram
Montaigne e Browne e um espanhol que ignoro;
Algo me resta ainda de todo esse ouro
Que meus olhos de sombra recolheram.
Defende-me, Senhor, do impaciente
Desejo de ser mármore e olvido;
Defende-me de ser o já vivido,
O que já fui irreparavelmente.
Não da espada ou da vermelha lança
Defende-me, mas sim da esperança.

Jorge Luis Borges

19.7.11

Tankas2

Alto no cimo
Todo o jardim é lua,
Lua de ouro.
Mais precioso é o roçar
De tua boca na sombra.
2
A voz da ave
Que a penumbra esconde
Emudeceu.
Andas por teu jardim.
E algo, eu sei, te falta.
3
A alheia taça,
A espada que foi espada
Em outra mão,
A lua do caminho,
Dize, acaso não bastam?
4
Sob a lua
O tigre de ouro e sombra
Olha suas garras.
Não sabe que na aurora
Destroçaram um homem.

Jorge Luis Borges

Susana Bombal

Alta na tarde, altiva e louvada,
Cruza o casto jardim e está na exata
Luz do instante irreversível e puro
Que nos dá este jardim e a alta imagem,
Silenciosa. Vejo-a aqui, nesta hora,
Mas também a diviso num antigo
Fulgor crepuscular da Ur dos Caldeus,
Ou então descendo a lenta escadaria
De um templo, que é inumerável pó
Do planeta e que foi pedra e soberba,
Ou decifrando o mágico alfabeto
Das estrelas de outras latitudes,
Ou aspirando uma rosa na Inglaterra.
Está onde houver música, no leve
Azul, e no hexâmetro do grego,
Em nossas solidões que a procuram,
No liso espelho de água de uma fonte,
No mármore do tempo, numa espada,
Nessa serenidade do terraço
Que divisa poentes e jardins.
E por detrás dos mitos e das máscaras,
A alma, que está só.

Jorge Luis Borges

20.8.09

O espelho

O espelho a minha frente é coisa muda,
Mas de sua mudez ele me fala:
A imagem alheia do outro lado
Me contempla longínqua e interrogante,

Parte de mim, em mim multiplicada,
E posta fora do que sou, textura
De outra pessoa, de outro sonho e forma
(No largo sono de um deus tranqüilo,

A voz se cala e deixa que o cristal
A memória de um vago ser recrie)
Ilusória assim como qualquer cifra.

Existimos, inúteis, refletidos.
Um teatro de sombras, sigiloso:
O que somos, em nosso alto crepúsculo.

Jorge Luis Borges

21.1.09

Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.

Jorge Luis Borges