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25.8.11

Eu não voltarei


Salinópolis PA - Verão 2011






Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

Juan Ramon Jiménez

24.8.11

Naturezas mortas




Havia talhadas de melancia rindo...
E os difíceis abacaxis: por fora uma hispidez de bicho insociável;
Por dentro, uma ácida doçura...
Morno veludo de pêssegos...
Frescor saudoso de amoras...
E, a mais agreste das criaturinhas,
Cada pitanga desmanchava-se como um beijo vermelho na boca.
Eu passo, sem querer, as costas da mão nos meus lábios:
Não sei por que desenho essas coisas no tempo passado...

Mário Quintana

Papoulas



tudo em mim trafega
os trilhos do infinito
por isso este olhar
abstrato
e este teorema de fatos
a relatar não mais que
minhas manilhas
imaginárias
sustentáculos deste
corpo que anda sem
mais os passos
que voa sem mais
que os braços

Lau Siqueira

Os nomes inúteis

I
Diz-me o teu nome — agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos — como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro — assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entre o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo — um nome sim.

***
Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o rosto da viagem. Anda,
vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

Maria do Rosário Pedreira (excertos)